sábado, 14 de julho de 2012

Almoço de domingo

Almoçar comigo é um problema porque sempre fico divagando entre uma garfada e outra. O shopping estava lotado e por isso pedi um cantinho na mesa ao lado do casal que esperava o número
do pedido sair. Os dois, jovens, classe média tentando subir na escala social, tinham uma típica conversa de domingo em família. 
- Amanhã você não pode ficar com o carro porque quero lavar antes de viajarmos.
- Mas preciso dele para fazer compras, depilação, cortar o cabelo e ir à manicure. Você não pode deixar para terça?
O rapaz, de óculos e cabelo com gel, disse sim e cedeu à bela moça. Contrariar uma grávida de seis meses por pouca coisa era bobagem.
Ao saborear meu filé de tilápia com molho de alcaparras, fiquei imaginando como seria a casa dos dois. Cachorro branco, sala com varanda, carro do ano. No quarto do bebê, um papel de parede
delicado, desses indicados por revistas de decoração. Ambos estavam de férias. Ela, professora primária. Ele, bancário com camisa dentro da calça e gravata todos os dias. Vida chata desses dois, pensei. Tão previsíveis!
O número 256 piscou e o rapaz, como dita a cartilha dos bons costumes, se levantou e foi pegar os pratos. Olhei para ver o que tinham pedido e tive a surpresa. Ele trouxe primeiro o prato dele! Deixou a moça salivando e só depois pegou o dela. Já comecei a imaginar como seriam quando velhos. Que maluquice a minha. 
Usei o guardanapo, arrastei a cadeira e me levantei. Agradeci à grávida, que estranhamente me olhou. Havia ganho mais uma história.

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