terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sobe-desce

Ele chegou em casa apressado. Precisava logo de sua cama confortável, gelo na cabeça e algo que o ajudasse a amenizar as 10 horas de trabalho e outras 2 no trânsito caótico da cidade grande. Morava no último andar. Queria aproveitar a vista, ficar mais perto do céu. Justificativas clichês de quem compra apartamento no alto. A verdade é que era sozinho e queria privacidade, afinal, barulho e incomodação ele já tinha o dia todo.
Chamou o elevador e aproveitou que estava vazio para assobiar a música grudada há uma semana.  Como o “trajeto” era demorado, seria uma boa maneira de passar o tempo. Embora houvesse uma câmera de segurança bem atrás dele, não hesitou em também ajeitar a camisa para fora da calça e praticamente tirar o sapato que o incomodava, dados o suor e aperto dos pés. Estava praticamente à vontade, fazendo do espaço espécie de antessala, quando paf! A porta se abriu e ele, com a mão na boca antecipando sua limpeza bucal, se deparou com a vizinha charmosa do sexto andar. “Boa tarde, mas o elevador está subindo”, disse ele, com tremor na voz. Silêncio.
Olhou para baixo e ficou sem saber o que fazer com a não-resposta da moça.  Não conseguia mais erguer a cabeça. Começou a suar frio e seu rosto avermelhar. Ia ter de aturar aquela criatura antipática por mais 8 andares, compartilhando a respiração, os olhares atravessados e sua intimidade.
Recolocou os sapatos e apertou o primeiro número que viu. Desceu correndo e, olhando para trás, como se precisasse dar uma desculpa de sua saída brusca, falou: “Esqueci a chave do carro. Vou pela escada até a garagem. Aproveite a viagem”.

sábado, 14 de julho de 2012

Carpe Diem

Estou há 50 dias sem folga. Trabalho de segunda a segunda para garantir minha fatia de felicidade. Me separei há 1 ano e, desde então, a vida se resume a trabalho, contas e passeios com o Henrique aos finais de semana. Ele preferiu ficar com o pai, engenheiro autônomo - carreira não tão promissora, mas menos trabalhosa que a minha.  Vendo imóveis para rendas acima de R$ 10 mil. Penso grande. Quero garantir a tranquilidade na velhice e a segurança do meu pequeno. Vale a pena.
Hoje é sábado, meu dia livre depois de 7 semanas e R$ 50 mil em comissão. Prometi passeio no parque e visita à loja de brinquedos. Um sorvete para adoçar a manhã e meu diabetes, que nunca foi dos mais baixos. Mas, o telefone sempre toca nessas horas. Um colega precisava de ajuda para mostrar o apartamento em um condomínio fechado belíssimo. Coisa de cinema. Academia, duas piscinas, quadras e até um restaurante-bar quando a fome apertasse. Para meu ex-marido seria o lugar de moradia ideal, mas ele insiste no 2 dormitórios herdado da família.
Tive de explicar ao Henrique que era coisa importante do trabalho da mamãe. Ele fez “sim” com a cabecinha e me acompanhou. 
Atendi os futuros compradores e me desculpei pela falta de paciência do meu filho que, a cada 10 minutos, perguntava quando sairíamos dali. Dei um forte aperto de mãos, sinal de segurança nos
negócios, e entrei no carro.
- A mamãe já acabou. A menos que você não queira mais ir ver os brinquedos...
Ele voltou a sorrir e fiquei o caminho todo pensando em como recompensá-lo por aquele papo chato de adulto. As crianças devem entender que a vida é feita de sacrifícios. 
Valeu a pena. Aproveitei o dia.

Almoço de domingo

Almoçar comigo é um problema porque sempre fico divagando entre uma garfada e outra. O shopping estava lotado e por isso pedi um cantinho na mesa ao lado do casal que esperava o número
do pedido sair. Os dois, jovens, classe média tentando subir na escala social, tinham uma típica conversa de domingo em família. 
- Amanhã você não pode ficar com o carro porque quero lavar antes de viajarmos.
- Mas preciso dele para fazer compras, depilação, cortar o cabelo e ir à manicure. Você não pode deixar para terça?
O rapaz, de óculos e cabelo com gel, disse sim e cedeu à bela moça. Contrariar uma grávida de seis meses por pouca coisa era bobagem.
Ao saborear meu filé de tilápia com molho de alcaparras, fiquei imaginando como seria a casa dos dois. Cachorro branco, sala com varanda, carro do ano. No quarto do bebê, um papel de parede
delicado, desses indicados por revistas de decoração. Ambos estavam de férias. Ela, professora primária. Ele, bancário com camisa dentro da calça e gravata todos os dias. Vida chata desses dois, pensei. Tão previsíveis!
O número 256 piscou e o rapaz, como dita a cartilha dos bons costumes, se levantou e foi pegar os pratos. Olhei para ver o que tinham pedido e tive a surpresa. Ele trouxe primeiro o prato dele! Deixou a moça salivando e só depois pegou o dela. Já comecei a imaginar como seriam quando velhos. Que maluquice a minha. 
Usei o guardanapo, arrastei a cadeira e me levantei. Agradeci à grávida, que estranhamente me olhou. Havia ganho mais uma história.

Mais uma (ou 1) da Paulista

Sol escaldante, asfalto queimando na avenida mais famosa do país, onde 1 milhão de pessoas, vindas de todos os pontos cardeais, circulam diariamente. Desfilam, respiram (ou tentam), vivem. Entre um passo e outro, as buzinas dos carros e o comércio que se instala sem pudor, uma figura de feição inesquecível na calçada. É a Paulista. Uns 60 anos, pele morena do sol, assustada vendo a correria.
O velho caixote de madeira é a casa da mulher que deve ser apenas o número de uma estatística qualquer. Mas, ela está ali, viva! Implora que um olhar dos apressados a perceba. Já se acostumou a ficar muda. E desnuda.
Como uma criançaqueainda não aprendeu a se portar em público, retira sua vestimenta inferior e revela para o mundo, ao ar livre, tudo aquilo que guarda no interior. Sem vergonha ou falta de jeito, pega o jornal amarelado e se limpa. Ninguém presta atenção, embora o odor não deixe dúvidas do que seu corpo depositou ali.
Ela se exibe como um outdoor (e não out odor) ambulante, faz pose em “seus” pouco mais de 2 metros quadrados e nada. Parece que leio seu pensamento quando, em vão, tenta fixar o olho em um passante procurando uma palavra. 
Essa Paulista quer entrar em alguma estatística real. Volta para seu lugar-comum e dorme ao relento, esperando que no dia seguinte um de 1 milhão escute sua história. É provável que não consiga mais sair do lugar, que os músculos não mais respondam. 
A correria dos passos desatentos deixou a Paulista estática de vez.

Alugue hoje e não devolva mais


As prateleiras estavam lotadas. Escolhia um filme. Ao meu lado, a jovem mãe e seu filho faziam o mesmo. Era feriado prolongado e entre ficar em casa tendo que responder a milhares de perguntas infantis e se entreter com a tela, ela preferiu a segunda opção.
- Mãe, quero levar esse.
- Não! Esse é muito complicado, você não vai entender.
- Vou sim! Por que é complicado? É só uma história...
- Não, escolhe outro. Quando for mais velho e entender, você leva esse.
Se o moleque abrisse o berreiro, poderia chamar a atenção de todos, e a mãe ficaria sem graça de dar novo “não”. A atendente também parecia curiosa em saber o desfecho do embate.
- Você leva esse da próxima vez. Mas hoje não, tá? A mamãe tá com pressa...
O menino estava com a cara triste, como se quisesse andar e estivesse preso ao chão. Viu que não adiantaria insistir e acabou “escolhendo” a mesma historinha de sempre. Peguei os meus e fui almoçar. Entrei no restaurante da esquina e quem encontro? A prodigiosa mãe e o filho. Fiz questão de sentar bem perto, para ouvir sobre o que conversavam. Até na refeição a mãe metia o dedo.
- Essa comida é muito pesada, vai fazer mal. Escolhe outra.
Fiquei com pena do menino. Esse negócio de “escolhe outra” se igualava a “escolhe o que eu escolher”. Imaginei como seria ele adulto. Lembraria daquele dia com raiva! Odiaria talvez a mãe pelas podadas eternas e definitivamente não teria sua escolha devolvida. Continuaria preso à prateleira, para sempre na categoria diversos.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Status mantido


O do cabelo vermelho e o loiro engatavam na conversa cifrada.
- Estava online com ela, mas me deixou falando sozinho!
- A conexão de vocês não é muito boa.
- Se um dos dois cair, não sabemos de onde veio a culpa. Justo na hora que eu dizia tudo! Já sei! Vou enviar flores...
- Hmm. Sabe quais as preferidas dela?
- Não! Que tal um cartão dizendo o quanto ela representa pra mim?
- Só não diga o mesmo que antes, para não confundi-la.
- Eu estou apaixonado, louco por ela! Como ficar fingindo?
- Você é quem sabe. Experiência própria. Talvez ela se assuste com tanta sinceridade.
- Vou mandar mesmo assim. Será: “Querida gatinha ruiva, me perdoe se falei demais ontem. Te encontro hoje, no mesmo horário. Cara loiro”.
Gatinha ruiva acaba de entrar.
Cara loiro acaba de entrar.
- Tá muito chateada comigo por eu ter exposto tanto o que sentia? (sem resposta). Tudo bem se vc ñ quiser mais. (Nenhuma resposta)
30 minutos depois, ao telefone:
- Cara, ela não me respondeu. Olha que esquisito. A gatinha ruiva saiu agora, justamente quando você atendeu. Alô? Alô?
O loiro não acreditava. Olhou todas as conversas virtuais na cópia de segurança e constatou que o do cabelo vermelho era a gatinha ruiva! Ninguém o conhecia melhor e, por isso, a paixão imediata, mas tinha medo da conversa real.
*Cara loiro “offline”.
*Gatinha ruiva “Ausente”.

Culpa do aslfato


Ele acordou com uma disposição nada habitual. Um beijo adocicado da mulher, sapatos infantis correndo pela sala, sorriso com covas na bochecha. Todos à mesa, café da manhã sagrado. Um dia daqueles comuns. Nem oito da manhã e começa a correria. Escova de dentes, nó na gravata. Ele precisa chegar a tempo ao trabalho. Entra no carro, dá uma carona para Ela e prossegue sozinho pela avenida mais movimentada da cidade.
Velocidade: 80 km/h. Corta caminho. Liga no noticiário de acidentes matinal. Vira à direita e prossegue, novamente é uma grande avenida. Esquece como chegar, se confunde. Olha as placas e nada... O sujeito de trás está impaciente. Nem nove da manhã. Ele baixa para 70km/h, um pouco menos do que o costume por ali. Graças a sua aparente lerdeza para conduzir o veículo, biiiiiiiiii! O insuportável susto de uma buzina... Seguido de palavras, gestos, olhares, dedos... Ele se esquece dos bons hábitos e deixa escapar sua raiva pela fresta do vidro. Desliga o rádio, qualquer barulho o perturba. Continua ao volante, firme. Pensa que pode zangar ainda mais os outros condutores se não fizer o que querem. Ri, mas agora sem covas na bochecha.
Os sujeitos de trás e ao lado não hesitam em reclamar. Até que chega a hora da freada brusca. Pronto! Um sujeito de trás sai do veículo, leva um canivete que há tempo guardava e o desfere cinco vezes sobre Ele. Cortes fatais. Ela é avisada. Nove e meia. O caso é urgente. Já não há o que fazer.
Na grande caixa de madeira, mais um corpo anônimo. No rosto Dele, indícios de um sorriso. Na foto do jornal, as únicas lembranças daquela manhã comum, fruto de uma felicidade comum, que não é noticiada.

A hora e a vez dos certinhos


O mundo está mesmo careta. Dia desses, em uma entrevista com o quadrinista Mauricio de Sousa, criador dos gibis mais populares do Brasil, o repórter perguntou se ele conseguiria criar algum daqueles personagens neste mundo dos politicamente corretos. Claro que a resposta foi negativa. Imagine a Mônica. Heroína gordinha, dentuça e brava, que ao ser irritada bate nos amigos com seu coelho de pelúcia azul. Seria a imagem de uma menina violenta que sofre bullying e precisa de terapia? Pense no programa Os Trapalhões sendo exibido hoje. Quatro homens, um deles sempre com a garrafa de pinga na mão, tentando se dar bem na vida. Um incentivo ao uso de bebida alcoólica, à malandragem e por aí vai.
A caretice extrapolou os limites. Ser politicamente correto virou moda. Em um supermercado da cidade, a promoção era trocar R$ 15 em compras por uma sacola de pano para fazer bem ao planeta. Sacola fashion e ecológica, não fosse o fato de vir embalada onde? Em um saco plástico. Agora, há lei para tudo, um festival de nãos. Não se pode fumar em locais fechados em alguns estados. Fumar faz mal à saúde, mas hoje o fumante é tratado quase pior do que um criminoso. Não se pode dirigir e falar ao telefone. Será que alguém se lembra daqueles carros que já vinham com telefone e eram a maior sensação? Os índices de acidente no trânsito eram menores do que os atuais, tenha certeza. Ainda na arte, o exemplo mais recente foi a morte da talentosa Amy Winehouse. Coisa mais clichê e fora de moda morrer aos 27 anos, graças a uma vida regada a drogas e no fim, a vaias nos shows.
É, o mundo não é mais o mesmo. Andar na linha é que é radical.

O sumiço do RG colorido

Lembrei-me da garota que sentava no canto direito do fundo da sala. A palidez inconfundível se misturava ao batom preto e às correntes espalhadas pelo corpo aparentemente frágil. Um rosto angelical encoberto pelas roupas pretas e uma apatia constante. Passava a sensação de uma fúria enrustida que, se descoberta, derrubaria a todos. Durante um bom tempo, jamais vi um sorriso, um olhar alegre. Aliás, nem uma palavra. Passei a elaborar algumas teorias para aquele silêncio. Podia ser a revolta jovem contra a sociedade: “o capitalismo maldito!”. Ou talvez ela fosse apenas uma observadora em terceira pessoa e preparasse um livro. Desvendar aquele mistério me instigava. 
Tentei frequentar os grupos dos que andam de preto. Certa vez, fiquei meia hora em silêncio do lado de fora de uma casa de shows. Grupos se formavam e nada entre eles se falava. A impressão era de que a música silenciava tudo. Visitei outras cores. Grupos que se vestiam de rosa-choque, que acompanhavam a moda do Fashion Week, os de calças rasgadas, os com cabelos ‘rasta’. Os poucos assuntos não mudavam. O engraçado é que muitos de seus integrantes mudavam para outros grupos. Experimentavam, não gostavam, trocavam, mas jamais se misturavam. Cada cor no seu lugar, à procura da identidade perfeita (que Marcelo D2 me permita). 
Quando entrei no último dia de aula na sala, lá estava ela, ainda calada e pronta para o exame do fim do semestre.
- Fulana, o RG, por favor.
- Não tenho o original. Não ando com ele.
Pela primeira vez a ouvi!
- Serve uma cópia?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Bê-á-bá

A professora de matemática arrumou um tempo na aula de trigonometria da escola da periferia paulistana para ouvir respostas de seus alunos àquela pergunta básica: o que você quer ser? Dorinha foi a primeira a responder.
- Quero ser dona-de-casa, fessora.
- E você, Carlinhos?
- Eu vou continuar ajudando o meu pai na obra. Quem sabe, um dia, consigo fazer uma faculdade e construir minha própria casa.
Para as garotas da turma, havia duas opções de futuro. E olha que estamos em pleno século 21, onde a multiplicidade impera em vários campos. Pouco menos da metade respondeu que queria ser do lar - do seu ou de alguma patroa -, como a Dorinha, mas a grande maioria falava como em uníssono: quero ser mulher de traficante.
Assustador, diria um mais desavisado sobre a situação do país. Não é de se admirar. Mulher de traficante não precisa trabalhar mais de 8 horas diárias para receber um salário mínimo no fim do mês. Ganha isso por dia, dependendo do faturamento. Nunca vai ser roubada dentro da comunidade e é respeitada por todas as outras vizinhas. Pode se arrumar todo dia em salão e ficar bonita pra quando seu homem acabar o "serviço". Tem a vantagem de poder escapar quando a polícia aparece e fingir que não é com ela. Mulher de traficante corre risco, mas garante melhor sustento dos seus filhos do que qualquer outra. Pode perder o companheiro num tiroteio, mas sempre há um ombro amigo após a guerra.
Na classe, já havia rapazes ligados ao crime, aprendendo como se virar na vida. E, para cada um, no mínimo, uma namorada.