domingo, 26 de fevereiro de 2012

Status mantido


O do cabelo vermelho e o loiro engatavam na conversa cifrada.
- Estava online com ela, mas me deixou falando sozinho!
- A conexão de vocês não é muito boa.
- Se um dos dois cair, não sabemos de onde veio a culpa. Justo na hora que eu dizia tudo! Já sei! Vou enviar flores...
- Hmm. Sabe quais as preferidas dela?
- Não! Que tal um cartão dizendo o quanto ela representa pra mim?
- Só não diga o mesmo que antes, para não confundi-la.
- Eu estou apaixonado, louco por ela! Como ficar fingindo?
- Você é quem sabe. Experiência própria. Talvez ela se assuste com tanta sinceridade.
- Vou mandar mesmo assim. Será: “Querida gatinha ruiva, me perdoe se falei demais ontem. Te encontro hoje, no mesmo horário. Cara loiro”.
Gatinha ruiva acaba de entrar.
Cara loiro acaba de entrar.
- Tá muito chateada comigo por eu ter exposto tanto o que sentia? (sem resposta). Tudo bem se vc ñ quiser mais. (Nenhuma resposta)
30 minutos depois, ao telefone:
- Cara, ela não me respondeu. Olha que esquisito. A gatinha ruiva saiu agora, justamente quando você atendeu. Alô? Alô?
O loiro não acreditava. Olhou todas as conversas virtuais na cópia de segurança e constatou que o do cabelo vermelho era a gatinha ruiva! Ninguém o conhecia melhor e, por isso, a paixão imediata, mas tinha medo da conversa real.
*Cara loiro “offline”.
*Gatinha ruiva “Ausente”.

Culpa do aslfato


Ele acordou com uma disposição nada habitual. Um beijo adocicado da mulher, sapatos infantis correndo pela sala, sorriso com covas na bochecha. Todos à mesa, café da manhã sagrado. Um dia daqueles comuns. Nem oito da manhã e começa a correria. Escova de dentes, nó na gravata. Ele precisa chegar a tempo ao trabalho. Entra no carro, dá uma carona para Ela e prossegue sozinho pela avenida mais movimentada da cidade.
Velocidade: 80 km/h. Corta caminho. Liga no noticiário de acidentes matinal. Vira à direita e prossegue, novamente é uma grande avenida. Esquece como chegar, se confunde. Olha as placas e nada... O sujeito de trás está impaciente. Nem nove da manhã. Ele baixa para 70km/h, um pouco menos do que o costume por ali. Graças a sua aparente lerdeza para conduzir o veículo, biiiiiiiiii! O insuportável susto de uma buzina... Seguido de palavras, gestos, olhares, dedos... Ele se esquece dos bons hábitos e deixa escapar sua raiva pela fresta do vidro. Desliga o rádio, qualquer barulho o perturba. Continua ao volante, firme. Pensa que pode zangar ainda mais os outros condutores se não fizer o que querem. Ri, mas agora sem covas na bochecha.
Os sujeitos de trás e ao lado não hesitam em reclamar. Até que chega a hora da freada brusca. Pronto! Um sujeito de trás sai do veículo, leva um canivete que há tempo guardava e o desfere cinco vezes sobre Ele. Cortes fatais. Ela é avisada. Nove e meia. O caso é urgente. Já não há o que fazer.
Na grande caixa de madeira, mais um corpo anônimo. No rosto Dele, indícios de um sorriso. Na foto do jornal, as únicas lembranças daquela manhã comum, fruto de uma felicidade comum, que não é noticiada.

A hora e a vez dos certinhos


O mundo está mesmo careta. Dia desses, em uma entrevista com o quadrinista Mauricio de Sousa, criador dos gibis mais populares do Brasil, o repórter perguntou se ele conseguiria criar algum daqueles personagens neste mundo dos politicamente corretos. Claro que a resposta foi negativa. Imagine a Mônica. Heroína gordinha, dentuça e brava, que ao ser irritada bate nos amigos com seu coelho de pelúcia azul. Seria a imagem de uma menina violenta que sofre bullying e precisa de terapia? Pense no programa Os Trapalhões sendo exibido hoje. Quatro homens, um deles sempre com a garrafa de pinga na mão, tentando se dar bem na vida. Um incentivo ao uso de bebida alcoólica, à malandragem e por aí vai.
A caretice extrapolou os limites. Ser politicamente correto virou moda. Em um supermercado da cidade, a promoção era trocar R$ 15 em compras por uma sacola de pano para fazer bem ao planeta. Sacola fashion e ecológica, não fosse o fato de vir embalada onde? Em um saco plástico. Agora, há lei para tudo, um festival de nãos. Não se pode fumar em locais fechados em alguns estados. Fumar faz mal à saúde, mas hoje o fumante é tratado quase pior do que um criminoso. Não se pode dirigir e falar ao telefone. Será que alguém se lembra daqueles carros que já vinham com telefone e eram a maior sensação? Os índices de acidente no trânsito eram menores do que os atuais, tenha certeza. Ainda na arte, o exemplo mais recente foi a morte da talentosa Amy Winehouse. Coisa mais clichê e fora de moda morrer aos 27 anos, graças a uma vida regada a drogas e no fim, a vaias nos shows.
É, o mundo não é mais o mesmo. Andar na linha é que é radical.

O sumiço do RG colorido

Lembrei-me da garota que sentava no canto direito do fundo da sala. A palidez inconfundível se misturava ao batom preto e às correntes espalhadas pelo corpo aparentemente frágil. Um rosto angelical encoberto pelas roupas pretas e uma apatia constante. Passava a sensação de uma fúria enrustida que, se descoberta, derrubaria a todos. Durante um bom tempo, jamais vi um sorriso, um olhar alegre. Aliás, nem uma palavra. Passei a elaborar algumas teorias para aquele silêncio. Podia ser a revolta jovem contra a sociedade: “o capitalismo maldito!”. Ou talvez ela fosse apenas uma observadora em terceira pessoa e preparasse um livro. Desvendar aquele mistério me instigava. 
Tentei frequentar os grupos dos que andam de preto. Certa vez, fiquei meia hora em silêncio do lado de fora de uma casa de shows. Grupos se formavam e nada entre eles se falava. A impressão era de que a música silenciava tudo. Visitei outras cores. Grupos que se vestiam de rosa-choque, que acompanhavam a moda do Fashion Week, os de calças rasgadas, os com cabelos ‘rasta’. Os poucos assuntos não mudavam. O engraçado é que muitos de seus integrantes mudavam para outros grupos. Experimentavam, não gostavam, trocavam, mas jamais se misturavam. Cada cor no seu lugar, à procura da identidade perfeita (que Marcelo D2 me permita). 
Quando entrei no último dia de aula na sala, lá estava ela, ainda calada e pronta para o exame do fim do semestre.
- Fulana, o RG, por favor.
- Não tenho o original. Não ando com ele.
Pela primeira vez a ouvi!
- Serve uma cópia?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Bê-á-bá

A professora de matemática arrumou um tempo na aula de trigonometria da escola da periferia paulistana para ouvir respostas de seus alunos àquela pergunta básica: o que você quer ser? Dorinha foi a primeira a responder.
- Quero ser dona-de-casa, fessora.
- E você, Carlinhos?
- Eu vou continuar ajudando o meu pai na obra. Quem sabe, um dia, consigo fazer uma faculdade e construir minha própria casa.
Para as garotas da turma, havia duas opções de futuro. E olha que estamos em pleno século 21, onde a multiplicidade impera em vários campos. Pouco menos da metade respondeu que queria ser do lar - do seu ou de alguma patroa -, como a Dorinha, mas a grande maioria falava como em uníssono: quero ser mulher de traficante.
Assustador, diria um mais desavisado sobre a situação do país. Não é de se admirar. Mulher de traficante não precisa trabalhar mais de 8 horas diárias para receber um salário mínimo no fim do mês. Ganha isso por dia, dependendo do faturamento. Nunca vai ser roubada dentro da comunidade e é respeitada por todas as outras vizinhas. Pode se arrumar todo dia em salão e ficar bonita pra quando seu homem acabar o "serviço". Tem a vantagem de poder escapar quando a polícia aparece e fingir que não é com ela. Mulher de traficante corre risco, mas garante melhor sustento dos seus filhos do que qualquer outra. Pode perder o companheiro num tiroteio, mas sempre há um ombro amigo após a guerra.
Na classe, já havia rapazes ligados ao crime, aprendendo como se virar na vida. E, para cada um, no mínimo, uma namorada.