Ele chegou em casa apressado. Precisava logo de sua cama
confortável, gelo na cabeça e algo que o ajudasse a amenizar as 10 horas de
trabalho e outras 2 no trânsito caótico da cidade grande. Morava no último
andar. Queria aproveitar a vista, ficar mais perto do céu. Justificativas
clichês de quem compra apartamento no alto. A verdade é que era sozinho e
queria privacidade, afinal, barulho e incomodação ele já tinha o dia todo.
Chamou o elevador e aproveitou que estava vazio para assobiar a
música grudada há uma semana. Como o
“trajeto” era demorado, seria uma boa maneira de passar o tempo. Embora
houvesse uma câmera de segurança bem atrás dele, não hesitou em também ajeitar
a camisa para fora da calça e praticamente tirar o sapato que o incomodava,
dados o suor e aperto dos pés. Estava praticamente à vontade, fazendo do espaço
espécie de antessala, quando paf! A porta se abriu e ele, com a mão na boca
antecipando sua limpeza bucal, se deparou com a vizinha charmosa do sexto
andar. “Boa tarde, mas o elevador está subindo”, disse ele, com tremor na voz.
Silêncio.
Olhou para baixo e ficou sem saber o que fazer com a
não-resposta da moça. Não conseguia mais
erguer a cabeça. Começou a suar frio e seu rosto avermelhar. Ia ter de aturar
aquela criatura antipática por mais 8 andares, compartilhando a respiração, os
olhares atravessados e sua intimidade.
Recolocou os sapatos e apertou o primeiro número que viu.
Desceu correndo e, olhando para trás, como se precisasse dar uma desculpa de
sua saída brusca, falou: “Esqueci a chave do carro. Vou pela escada até a
garagem. Aproveite a viagem”.