domingo, 26 de fevereiro de 2012

Culpa do aslfato


Ele acordou com uma disposição nada habitual. Um beijo adocicado da mulher, sapatos infantis correndo pela sala, sorriso com covas na bochecha. Todos à mesa, café da manhã sagrado. Um dia daqueles comuns. Nem oito da manhã e começa a correria. Escova de dentes, nó na gravata. Ele precisa chegar a tempo ao trabalho. Entra no carro, dá uma carona para Ela e prossegue sozinho pela avenida mais movimentada da cidade.
Velocidade: 80 km/h. Corta caminho. Liga no noticiário de acidentes matinal. Vira à direita e prossegue, novamente é uma grande avenida. Esquece como chegar, se confunde. Olha as placas e nada... O sujeito de trás está impaciente. Nem nove da manhã. Ele baixa para 70km/h, um pouco menos do que o costume por ali. Graças a sua aparente lerdeza para conduzir o veículo, biiiiiiiiii! O insuportável susto de uma buzina... Seguido de palavras, gestos, olhares, dedos... Ele se esquece dos bons hábitos e deixa escapar sua raiva pela fresta do vidro. Desliga o rádio, qualquer barulho o perturba. Continua ao volante, firme. Pensa que pode zangar ainda mais os outros condutores se não fizer o que querem. Ri, mas agora sem covas na bochecha.
Os sujeitos de trás e ao lado não hesitam em reclamar. Até que chega a hora da freada brusca. Pronto! Um sujeito de trás sai do veículo, leva um canivete que há tempo guardava e o desfere cinco vezes sobre Ele. Cortes fatais. Ela é avisada. Nove e meia. O caso é urgente. Já não há o que fazer.
Na grande caixa de madeira, mais um corpo anônimo. No rosto Dele, indícios de um sorriso. Na foto do jornal, as únicas lembranças daquela manhã comum, fruto de uma felicidade comum, que não é noticiada.

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