Lembrei-me da garota que sentava no canto direito do fundo da sala. A palidez inconfundível se misturava ao batom preto e às correntes espalhadas pelo corpo aparentemente frágil. Um rosto angelical encoberto pelas roupas pretas e uma apatia constante. Passava a sensação de uma fúria enrustida que, se descoberta, derrubaria a todos. Durante um bom tempo, jamais vi um sorriso, um olhar alegre. Aliás, nem uma palavra. Passei a elaborar algumas teorias para aquele silêncio. Podia ser a revolta jovem contra a sociedade: “o capitalismo maldito!”. Ou talvez ela fosse apenas uma observadora em terceira pessoa e preparasse um livro. Desvendar aquele mistério me instigava.
Tentei frequentar os grupos dos que andam de preto. Certa vez, fiquei meia hora em silêncio do lado de fora de uma casa de shows. Grupos se formavam e nada entre eles se falava. A impressão era de que a música silenciava tudo. Visitei outras cores. Grupos que se vestiam de rosa-choque, que acompanhavam a moda do Fashion Week, os de calças rasgadas, os com cabelos ‘rasta’. Os poucos assuntos não mudavam. O engraçado é que muitos de seus integrantes mudavam para outros grupos. Experimentavam, não gostavam, trocavam, mas jamais se misturavam. Cada cor no seu lugar, à procura da identidade perfeita (que Marcelo D2 me permita).
Quando entrei no último dia de aula na sala, lá estava ela, ainda calada e pronta para o exame do fim do semestre.
- Fulana, o RG, por favor.
- Não tenho o original. Não ando com ele.
Pela primeira vez a ouvi!
- Serve uma cópia?
- Fulana, o RG, por favor.
- Não tenho o original. Não ando com ele.
Pela primeira vez a ouvi!
- Serve uma cópia?
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