A professora de matemática arrumou um tempo na aula de trigonometria da escola da periferia paulistana para ouvir respostas de seus alunos àquela pergunta básica: o que você quer ser? Dorinha foi a primeira a responder.
- Quero ser dona-de-casa, fessora.
- E você, Carlinhos?
- Eu vou continuar ajudando o meu pai na obra. Quem sabe, um dia, consigo fazer uma faculdade e construir minha própria casa.
Para as garotas da turma, havia duas opções de futuro. E olha que estamos em pleno século 21, onde a multiplicidade impera em vários campos. Pouco menos da metade respondeu que queria ser do lar - do seu ou de alguma patroa -, como a Dorinha, mas a grande maioria falava como em uníssono: quero ser mulher de traficante.
Assustador, diria um mais desavisado sobre a situação do país. Não é de se admirar. Mulher de traficante não precisa trabalhar mais de 8 horas diárias para receber um salário mínimo no fim do mês. Ganha isso por dia, dependendo do faturamento. Nunca vai ser roubada dentro da comunidade e é respeitada por todas as outras vizinhas. Pode se arrumar todo dia em salão e ficar bonita pra quando seu homem acabar o "serviço". Tem a vantagem de poder escapar quando a polícia aparece e fingir que não é com ela. Mulher de traficante corre risco, mas garante melhor sustento dos seus filhos do que qualquer outra. Pode perder o companheiro num tiroteio, mas sempre há um ombro amigo após a guerra.
Na classe, já havia rapazes ligados ao crime, aprendendo como se virar na vida. E, para cada um, no mínimo, uma namorada.
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